Pandemia do Covid -19. Na estrada em plena pandemia.
Chegou 2020 e nos preparamos para cair na estrada. O projeto era uma caravana do grupo “Parceiro é parceiro” que reuniu alguns campistas com afinidades no olhar, no entender e no que desejar do mundo. Quanto ao roteiro tínhamos definido apenas a proposta de sair do Sul do país em direção ao Norte e Nordeste do Brasil. O tempo? Longo, seguiria enquanto tivéssemos vontade e condições. As paradas, estradas, lugares para conhecer, tudo a ser combinado a cada dia. O grupo iria se construindo no caminho com a chegada de novos parceiros.
Saímos, no dia 16 de Março de 2020, da nossa morada em Imbituba para pernoitar em Florianópolis. No dia seguinte, nos despedimos da filha e do genro e partimos para encontrar o primeiro casal parceiro, Mauricio e Neuza, na saída da ilha. Registrado o momento e devidamente paramentados partimos pela BR 101 em direção à Curitiba, onde nos aguardavam o terceiro casal, Gerson e Flora.
Alguns dias antes da nossa saída, começaram a noticiar sobre os primeiros casos de brasileiros, vindo do exterior, infectados com um novo vírus o qual pouco se sabia. O agente ainda não havia sido nomeado ou sequenciado, existiam casos de infecção no exterior, porém não um alerta de pandemia.
Partimos tranquilos, sem noção da gravidade e da proporção que viria a se tornar esta nova doença. À medida que deslocávamos, rapidamente aumentava a divulgação dos seus alertas nos meios de comunicação, porém pouco acompanhávamos os acontecimentos devido o deslocamento. As notícias que circulavam ainda eram imprecisas.
Nossa primeira parada foi em um restaurante - às margens da BR 116 -, almoçamos e logo seguimos viagem até o Posto de Combustível O Fazendeiro, próximo à Registro-SP, onde pernoitamos. Ali começamos a ouvir as primeiras notícias que o vírus se espalhava rapidamente, com maior incidência no Sul do Brasil.
Seguimos em comboio, os três motohomes, de O Fazendeiro, retornando à BR 101, agora em direção ao litoral. Fizemos a parada do almoço e aproveitamos para esticar o corpo à beira-mar, na Praia de Maresia-SP. Um cenário lindo assim é cheio de boas energias, mais ainda, para os que caíram no mar- Maurício(hahahah)-para um mergulho rápido. O almoço foi uma refeição rápida, cada um em sua cozinha, afinal estamos em casa.
Descansados e alimentados fomos à estrada novamente e seguimos para o estado do Rio de Janeiro, até a cidade de Paraty. Chegamos tarde e resolvemos parar direto no Camping Portal de Paraty, sem circular pela cidade, nem ir até o camping CCB que seria a outra opção para pernoite. A esta altura já aumentavam as notícias sobre o alastramento do vírus por outras regiões e iniciava-se a proibição de alguns serviços. Santa Catarina, de onde partimos, anunciava a instalação de barreiras sanitárias, suspensão do transporte público, entre outras medidas restritivas. Apesar do Camping estar aberto, notamos mudanças no movimento da cidade e a preocupação das pessoas. Era a pandemia instalando-se no país.
Mais uma vez nos reunimos à noite em assembleia. Após confirmar que se juntariam ao grupo o outro casal parceiro, programado de partir do RS nos próximos dias, decidimos coletivamente seguir viagem, afinal, acreditávamos que os casos estariam mais ao Sul e nós estávamos indo para o Norte\nordeste. Que engano!
O grupo escolheu não ficar em Paraty, assim como não fazer paradas no estado do Rio de janeiro. Seguiríamos direto, tentando afastar-se o mais rápido possível dos grandes centros urbanos e dos locais onde já ouvíamos notícias de circulação do vírus.
Logo pela manhã partimos de Paraty em direção ao Espírito Santo, mas nem tudo saiu conforme o planejado! Em um lindo trecho da BR 101 que liga Paraty à Angra dos Reis, nossa Branquela Viajante tem uma pane e simplesmente apaga. Não dá sinal de voltar a ligar, ou qualquer pista de qual tipo de problema ocorreu. Éramos o último MH da caravana, o local não era muito seguro, a estrada era de grande movimento, estávamos próximo a uma região com alto índice de criminalidade. Avisamos aos parceiros do grupo sobre o incidente e com o retorno de Gerson e Maurício nos sentimos mais seguros.
Com o socorro prestado via telefone pelo mecânico Igor da “Mecânica Confiança”, de Caxias do Sul, encontramos o problema. Um fusível da bateria quebrou-fica a dica. Ai, foi só fazermos uma “gambiarra”, usando um fio para substituir o fusível, até chegarmos a uma oficina. Como recompensa a este perrengue tivemos um delicioso almoço, gentilmente feito por Neuza, no seu motorhome que permanecera estacionado em frente a um dos luxuosos condomínios privados da região. Depois disto, foi só saborear e relaxar com os parceiros!
Como previsto para toda boa gambiarra, temporariamente, fomos salvos. Porém o perrengue não acabara! Tivemos que aguardar até o dia seguinte e ao buscarmos um mecânico, na cidade de Bom Jardim-RJ, descobrimos que ao mexer no sistema de combustível provocamos um problema que fizera o óleo diesel vazar. Mesmo esperando por várias horas, a oficina que estávamos não nos atendeu e indicou-nos outra, a Mecânica do Helinho, onde fomos logo atendidos e o problema do óleo resolvido: era a mangueira do retorno do diesel que se soltou. Nossa penitência teria sido encerrada se não fosse um "pequenino acidente” no botão da caixa de detritos que nos custou grande constrangimento, uma limpeza na oficina e muitos pedidos de desculpas. Acontece, né?!
A sorte bateu em nossa porta e na mesma rua conseguimos o eletricista para trocar o fusível da bateria que havia rompido. Mas a espera até chegar à peça foi grande e tensa, já que a pandemia se espalhava rapidamente e estávamos nos expondo nestes ambientes e contatos. Nosso especial agradecimento aos parceiros que tiveram paciência e foram solidários neste período de atraso e tensão.
Tudo em ordem no motorhome! juntamo-nos aos parceiros para pegar a estrada em consenso de seguirmos direto, sem maiores parada, no Estado do Rio de Janeiro. O vírus se alastrava rapidamente, algumas vias de acesso às cidades estavam fechando, barreiras sanitárias estavam sendo instaladas e aumentavam as restrições de serviços, incluindo campings.
Seguimos viagem, no trajeto vou fazendo alguns contatos para viabilizar nosso pernoite e apoio. Tento o Antônio, administrador do Grupo das Master e que tem um ponto de apoio em Guarapari-ES: No seu retorno informa que podemos ir ao seu ponto de apoio, mas alerta que talvez não consigamos entrar na cidade, pois já haveriam barreiras. Contatei também o Adilson, que em 2016, havia nos acolhido em Caravelas, Bahia - veja no Blog, o relato do passeio de catamarã que fizemos com ele até o Arquipélago de Abrolhos! Foi top. Ele conta que não mora mais em Caravelas, mudou-se para o interior da Bahia, deixou o convite para irmos conhecer o lugar, mas, não será desta vez, lá também estaria com dificuldades para acessar.
Nosso objetivo do dia foi chegar até Prado- Bahia, onde através de nossa parceira Edineuza, já tínhamos indicação de que estavam recebendo motorhome na Pousada Sol e Mar. Chegamos final da tarde e nos instalamos no estacionamento da pousada, depois de 4 dias de viagem, foi nosso primeiro momento de montar acampamento e relaxar.
O dia não poderia ser mais especial, era o aniversário da amiga e parceira Neuza. Foi o segundo aniversário que comemoramos na estrada, tínhamos comemorado o aniversário da Flora no pernoite do Camping Portal, em Paraty, com toda pompa de um sabre para abrir o espumante. A comemoração da Neuza não ficou por menos, tinha muitas delícias e até cascata de chocolate. Minha total admiração à capacidade das meninas de transportar, elaborar, com requinte, tamanha comemoração em plena estrada. Parabéns gurias! vida longa e feliz.
Foi uma noite tensa, com gosto amargo, afinal era o fim da Caravana Parceiro é Parceiro, ou no mínimo, seu adiamento. À noite quando nos reunimos e combinamos a saída no dia seguinte, junto ao sentimento de decepção por abandonar o projeto, havia um certo alívio devido a voltar ao aconchego familiar.
Toda a manhã seguinte foi dedicada a desmontarmos acampamento e prepararmos os motorhome para a partida. Dá bastante trabalho, em especial para quem tem equipamentos maiores e carrega junto outros meios de transporte. A nossa compacta Branquela Viajante e nosso jeito minimalista deixa esta etapa mais leve. Guardar mesa/cadeira, fechar o toldo, re colher o ponto de água e luz e está tudo pronto.
Saímos às 7h30 de Prado-BA, rumo a nossa casa fixa, em Imbituba SC. Será uma viagem longa e tensa. Estamos a mais de 2000 km longe de casa, em meio a uma pandemia, com poucas e confusas informações. A proposta do grupo foi tocar direto, com paradas apenas para comer e dormir, e assim fizemos. Almoçamos em Linhares-ES, em um posto de gasolina, onde experimentamos o feijão feito pelo Gerson, uma delícia!
O pernoite foi próximo a Campos de Goytacazes –RJ, no mesmo posto de gasolina que paramos na ida. Naquela reunião noturna, decidimos avisar sobre o nosso retorno e afinamos que seria apenas um adiamento do projeto. Foram 800 km rodados no dia, cansativo principalmente para os motoristas.
O dia seguinte foi novamente intenso de estrada. Fizemos a opção de ir pela BR-116 sem paradas, passando pelo Rio de Janeiro. O seu visual sempre é um presente para quem ama estar na estrada.
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Chegamos no final da tarde ao nosso destino do dia, o Santuário Nacional de Aparecida-SP, onde pernoitamos. Foi uma parada excelente, bem seguro, tranquilo e estava tudo vazio. Pagamos R$ 30,00 o pernoite no estacionamento. O local é enorme, bem arborizado, com banheiros, água, luz e vagas específicas para motorhome. Só eu e José não conhecíamos o Santuário. Estava nos nossos planos algum dia passar ali, enfim aconteceu sem programação prévia. Tivemos tempo de fazer um tour pelas vastas instalações e o privilégio de assistir a um lindo pôr do sol no Santuário
Harmonizados e já nos sentindo mais próximos de casa saímos cedinho no dia seguinte. Fizemos uma parada para o Mauricio comprar e trocar um pneu do seu motorhome que estava com problema. Resolvido, pegamos novamente a BR 116 até o Posto "O Fazendeiro”, onde fizemos a parada para almoçar em Miracatu-SP. Pegamos a BR 116 até Curitiba-PR e depois na BR 101, até o Post Rudnick em Joinville-SC, o local do nosso último pernoite juntos. Foi bem especial, juntamos vários quitutes e regamos nossa roda de conversa com um bom vinho. Teve um gostinho de despedida, com cheiro de gratidão pelo fortalecimento dos laços de amizade e companheirismo, além do sabor de quero mais. Que seja em breve!
Chegamos em Imbituba meio dia, fomos parados pela barreira sanitária logo de cara. Tivemos que fazer aferição de temperatura, declarar de onde vínhamos, fomos “etiquetados” como vistoriados e assim autorizados a entrar na cidade. Sentimos a gravidade da situação, então passamos direto no mercado e fizemos uma super compra. Faziam anos que não comprávamos aquela quantidade de alimento, naquele momento achamos prudente! Não precisaríamos sair de casa por muitos dias, seguindo as recomendações de quarentena e isolamento.
Passamos vinte dias literalmente trancados dentro do apartamento sem sair. Passado o período de quarentena, começamos lentamente a fazer breves caminhadas na beira mar, em frente ao apartamento. Agora é ficar em casa, manter todos os cuidados recomendados - Álcool em gel, máscaras, lavar as mãos, não aglomerar -, torcer que passe logo a pandemia e não seja grave como o previsto.
DADOS DA VIAGEM
Dias de Viagem: 10 dias
Km rodados: 4.500
- Ida - Imbituba-SC, Florianópolis-SC, Curitiba-PR,
Maresias- SP, Paraty-RJ, Prado-BA.
- Volta - Prado-BA, Aparecida-SP, Joinville SC, Imbituba –SC.
Gastos:
Pedágio: R$ 254,45Combustível: R$ 1.146´00
Passeios: R$ zero
Camping: R$ 250,00
Mecânico: R$ 200,00
Camisetas e adesivos: R$ 200,00
Alimentação: R$ 141,00 ( Não contabilizado refeições elaboradas no MH, com alimentos previamente adquiridos)
Total: R$ 2.191,48







Viajei junto na sua narrativa e vivi à distância cada incerteza daqueles dias e o alívio da chegada ao aconchego de casa a salvos da doença que se alastrava e começava a vitimar muitos. Um xero.
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